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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Uma armadilha nuclear adicional



Uma armadilha nuclear adicional

A não utilização dos combustíveis fósseis é tida e havida como a mais importante dentre as vantagens da utilização da energia nuclear. Muitos ecologistas brasileiros já estavam a até simpatizando com ela, pois, ao contrário das hidroelétricas, não necessita de reservatórios evitando o alagamento de grandes áreas, a perda de reservas naturais, de terras agriculturáveis, a remoção de comunidades, além de evitar possíveis alterações climáticas.

Porém, no que pese tudo isso, as desvantagens de sua utilização são muito sérias para serem menosprezadas, pois as mesmas passam pela possibilidade de acidentes dos quais se destacam o ocorrido em Three Mile Island (ilha do Rio Susquehanna, Pensilvânia, EUA, em 1979), em Chernobyl (Usina Nuclear de Chernobyl, batizada originalmente de Vladimir Lenin, na Ucrânia então integrante da extinta União Soviética em 1986) e agora na usina de Fukushima, no Japão (março de 2011), o qual ainda não está completamente controlado, pois, segundo a própria operadora do complexo, a Tokyo Eletric Power (Tepco), serão necessários nove meses para controlar a crise nuclear, valendo ressaltar, que os técnicos japoneses certamente devem estar considerando que não haverá nesse interim nenhum outro fenômeno sísmico. Apenas, para uma melhor avaliação dos riscos contidos numa instalação dessa natureza, o evento de Chernobyl foi tão grave, que contaminou radioativamente uma área aproximada de 150.000 km² - correspondente a mais de três vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro - sendo que 4.300 km² possuem acesso interditado indefinidamente”.

Além disso, as desvantagens passam também pela geração dos resíduos atômicos que, segundo os estudiosos do assunto, um reator nuclear de 1200 MW como o de Angra 2 (Rio de Janeiro, Brasil) produz por ano 265kg. desse material, o qual tem uma meia-vida de 24.000 anos. Pelo perigo a que os funcionários estão expostos (Um funcionário do institudo de pesquisa nuclear belga em Mol (EURATOM) sofreu um acidente em 1980 que o expôs a Plutônio-239 e provavelmente o levou a morte por leucemia 8 anos depois. Pesquisas em cachorros, motivadas por esse incidente, demonstraram que 3,24 miligrama de Plutônio-239 absorvidos pelo pulmão resulta em morte por câncer). Por um problema grave de segurança, haja vista que a Agência Internacional de Energia Atômica vive preocupadíssima com a possibilidade dos resíduos serem utilizados indevidadmente e de forma criminosa por grupos terroristas, por exemplo. A preocupação da AIEA justifica-se plenamente, pois os seus membros sabem como é fácil desviar materiais radioativos. Não devemos esquecer o acidente de Goiânia, Brasil, em 1987, onde uma ampola com Césio 137 foi encontrada dentro de um hospital abandonado. Fechando o cardápio de riscos existe ainda a produção de gases produtores do efeito estufa que numa usina nuclear é de 3 a 6 vezes maior do que os resultantes da produção de energia hídrica e eólica, considerando-se todo o processo de geração, além do que, de acordo com informações contidadas no artigo de Roland Buerk (BBC – 18.04.2011), publicado no Boletim Eletrônico da Inovação Tecnológica (20.04.2011), a prioridade absoluta da Tepco (Fukushima) é interromper o vazamento de água radioativa para o Oceano Pacífico. É realmente tranquilizadora a informação de Buerk, principalmente quando circula a notícia de que o governo do Estado da Bahia pretende implantar usinas nucleares às margens do Velho Chico. Pergunto então, quantas cidades, vilas e comunidades situadas nas margens desse grande rio, na orla marítma onde ele desagua seriam atingidas se houvesse um pequeno vazamento de água contaminada por radiação? O rio São Francisco, chamado pelos indígenas de Opará, atravessa o Estado da Bahia desaguando, por fim, no Oceano Atlântico. No seu curso, sem considerar Minas Gerais, pois acredito que estaria a salvo do problema, banha, além da Bahia, os estados de Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Alimenta os canais de transposição, e quatro hidroelétricas situadas nesse trecho Bahia/Oceano (Itaparica, Moxotó, Paulo Afonso e Sobradinho), além de “molhar” aluviões recentes, arenitos e calcáreos por onde passa e que funcionam como verdadeiras esponjas.

E, tem mais, vamos considerar que nenhuma falha operacional acontecesse, nenhum acidente ocorresse, todos componentes fossem adquiridos no prazo certo, enfim, tudo funcionasse durante anos nas mais perfeitas condições entre a data de início de operação da usinas nucleares e a data de sua desativação, haja vista que elas possuem um “prazo de validade” como veremos a seguir.

O mesmo Boletim Eletrônico da Inovação Tecnológica mencionado anteriormente, nos fornece informações interessantes em um artigo intitulado: Desativar uma usina nuclear é mais difícil do que se previa (Swissinfo - 15/04/2011) e continua comentando sobre a desativação da usina nuclear de Berzau I com cerca de 40 anos de existência e outros problems relacionados.

A usina nuclear de Beznau I, a mais antiga da Suíça, está se aproximando do momento de sua desmontagem, mas nem tudo está saindo como previsto. Teoricamente, ao atingir o fim de sua vida útil, uma usina nuclear deverá ser desmontada como qualquer outro equipamento inservível.Na prática, porém, autoridades e técnicos suíços e alemães estão vendo que a coisa não é tão fácil como se prevê nos estudos teóricos. A experiência dos dois países mostra que fatores inesperados podem surgir na questão do desmantelamento dos equipamentos nucleares e que o planejamento financeiro não responde às necessidades reais.

Desativação de usinas nucleares

A demolição das usinas nucleares desativadas na Suíça já está planejada desde que elas foram projetadas. Porém, desde que entraram em funcionamento, nunca o destino dessas centrais esteve tão politicamente incerto como agora. Oficialmente a indústria atômica e o governo consideram que as usinas nucleares têm um período útil de vida de cinquenta anos.

Durante esse tempo, os consumidores de energia pagam um acréscimo na conta de energia de 0,8 centavos de franco suíço por Kilowatt/hora. Os recursos captados alimentam dois fundos: um fundo para o desligamento das centrais e um fundo para financiar a eliminação dos dejetos radioativos.

Os dois fundos são controlados pelo governo federal. Assim como os fundos de pensão, esses recursos são aplicados nos mercados financeiros. A meta é um retorno de capital na base de 5% ao ano. Atualmente a soma de capital dos dois fundos é de 4,15 bilhões de francos. O custo oficial planejado para a eliminação dos dejetos radioativos durante o período de funcionamento das centrais (eliminação e transporte do lixo nuclear), e da demolição consequente das estruturas, é de 15,5 bilhões. Desse valor, as operadoras das centrais assumem 7 bilhões. Os restantes 8,5 bilhões deveriam vir dos fundos - mas os fundos têm menos da metade disso.

Falta capital para o risco

Assim fica claro: mesmo se a central nuclear não for retirada prematuramente da rede elétrica, o financiamento do desmantelamento não está 100% garantido. A questão é se os mercados de capitais podem dar realmente um retorno anual de 5%. Em todo caso, especialistas consideram essa meta bastante ambiciosa. Além disso, ainda é preciso levar em conta complicações possíveis no caso de trabalhos complexos e dispendiosos no desmantelamento. No caso de desativação prematura, o fundo não é mais financiado. Caso haja necessidade de capital, a Lei atualmente em vigor na Suíça sobre o uso da energia nuclear prevê que as operadoras das centrais nucleares cubram a parte em falta, caso os recursos disponíveis nos fundos não sejam suficientes. Porém, especialistas duvidam que a quota de capital próprio responda a essa necessidade.
O especialista em mercados financeiros, Kaspar Müller, escreve no seu estudo publicado em 2008 - "Risco e rendimentos das centrais nucleares" - que falta "em grande ordem às centrais nucleares é capital para assumir responsabilidade em caso de riscos e a estabilidade financeira é questionável".

Desmantelamento problemático na Alemanha

A experiência, até então, com o desmantelamento de uma usina nuclear na Alemanha, mostra que esse processo complexo não apenas pode durar mais do que vinte anos, mas também provocar surpresas desagradáveis na forma de locais que estão contaminados radioativamente. Esse fator aumenta o trabalho e também os custos.

"Nos últimos anos as empresas especializadas no desmantelamento ganharam bastante experiência. Foi possível aperfeiçoar e melhorar os métodos utilizados,", declara Philipp Hänggi, da Swissnuclear, o grupo de interesse das empresas do setor.

"Contudo, os custos e o tempo de desmantelamento da primeira dúzia de centrais desativadas não são diretamente transferíveis aos novos projetos de desmantelamento As etapas individuais podem ser padronizadas, mas o desmantelamento de todo o sistema será sempre um projeto individual," diz o representante da indústria.

Hänggi considera o prazo de 15 anos para desmontar completamente uma central nuclear como realista. A questão, de saber se o terreno utilizado poderá abrigar posteriormente um parque infantil, é respondida por ele com um "sim".

Herança nuclear

Na desmontagem, em primeiro lugar são removidos os bastões de combustível nuclear e o edifício do reator. A descarga das barras de combustível "não é um processo extraordinário", declara Michael Schorer, chefe de comunicação no Fórum Nuclear. "Os bastões de combustível são trocados regularmente durante o funcionamento normal das centrais e levados para depósitos provisórios."

As autoridades suíças estimam que o simples desmantelamento de todas as centrais nucleares do país e a manutenção do depósito provisório de lixo nuclear em Würenlingen custaria 2,2 bilhões de francos. Os custos de eliminação durante o período de funcionamento das centrais são de 13,3 bilhões. No valor está incluído o reprocessamento dos bastões, o depósito provisório e o depósito geológico final.

A cada cinco anos os custos são checados e reavaliados. Um estudo mais recente deverá ser publicado em 2012.

A partir da catástrofe no Japão, a pressão para o desligamento antecipado das mais antigas usinas - Mühleberg e Beznau - não vem mais só dos grupos de esquerda e dos ecológicos, mas também de uma parte dos partidos de centro.

Por outro lado, o lobby atômico resiste: a desativação prematura teria não apenas consequências a curto prazo, mas também afetariam o planejamento do período subsequente, incluindo também o financiamento para a demolição das estruturas criadas.

Apenas como referência, Angra 1 entrou em funcionamento em 1984  e está com 27 anos de funcionamento, Angra 2 iniciou a sua operação em 2000 (11 anos) e Angra 3 aiinda não foi concluída.

Para concluir, perguntaria aos leitores: vocês acreditam sinceramente que todo esse planejamento técnico-financeiro que não funcionou na Suíça e na Alemanha, países com reconhecida tradição de qualidade e responsabilidade no trato com as coisas públicas, funcionaria aqui no Brasil? Vocês acreditam realmentge que esses recursos aplicados por tantos anos não já teria sido destinado, devagarzinho e subrepiticiamente para outras finalidades (Lembrem-se da CPMF para a saúde e do IPVA que ninguém sabe para onde vai)? Vocês acreditam que o aparelhamento político dos organismos públicos dariam respostas em tempo hábil às necessidades de usinas nucleares espalhadas por aí? A manutenção de uma instalação dessas é uma coisa muito séria. Não se pode dizer que a peça tal não foi comprada porque o responsável pelo processo de aquisição ficou doente. Tem que estar à disposição na hora certa. Esse é o medo adicional, além daquele relacionado com os riscos inerentes à utilização da energia nuclear. Todos nós sabemos, que a falta dos recursos necessários alocados na hora certa está matando gente nas filas dos hospitais públicos e postos de saúde; remédios de uso contínuo, ou não são encontrados ou precisam de liminares da justiça, para serem fornecidos pelos governos, tanto federal, quanto estaduais e municipais, o mesmo ocoorrendo com certos procedimentos médicos. Todo dia tem um caso desses noticiado nos jornais, rádios e televisões. A burocracia estatal brasileira é um elefante branco portador de todas as necessidades especiais possíveis. A contaminação radioativa não reconhece conveniência política e não espera. Buscando nas enciclopédias encontramos: a) o acidente ocorrido em Three Mile Island foi causado por falha do equipamento devido a falhas no sistema secundário não nuclear e erro operacional. Houve corte de custos que afetaram economicamente a manutenção e uso de materiais inferiores. Mas, principalmente, nas investigações apontaram-se erros humanos, com decisões e ações erradas tomadas por pessoas despreparadas. Isso ocorreu nos Estados Unidos. Vocês acham que isso não pode acontecer aqui? Há poucos meses atrás um erro humano “desligou” todo o Nordeste, se é que foi só isso.

No caso de Chernobyl a coisa foi ainda pior. Existem duas teoria oficiais e contraditórias sobre a causa do acidente. Vejam o que diz a fonte de pesquisa:

A primeira foi publicada em agosto de 1986 e atribuiu a culpa, exclusivamente, aos operadores da usina. A segunda teoria foi publicada em 1991 e atribuiu o acidente a defeitos no projeto do reator RBMK, especificamente nas hastes de controle. Ambas as teorias foram fortemente apoiadas por diferentes grupos, inclusive os projetistas dos reatores, pessoal da usina de Chernobyl, e o governo. Alguns especialistas independentes agora acreditam que nenhuma teoria estava completamente certa. Na realidade o que aconteceu foi uma conjunção das duas, sendo que a possibilidade de defeito no reator foi, exponencialmente, agravado pelo erro humano.

Porém o fator mais importante foi que Anatoly Dyatlov, engenheiro chefe responsável pela realização de testes nos reatores, mesmo sabendo que o reator era perigoso em algumas condições e contra os parâmetros de segurança dispostos no manual de operação, levou a efeito intencionalmente a realização de um teste de redução de potência que resultou no desastre. A gerência da instalação era composta em grande parte de pessoal não qualificado em RBMK: o diretor, V.P. Bryukhanov tinha experiência e treinamento em usina termo-elétrica a carvão. Seu engenheiro chefe, Nikolai Fomin, também veio de uma usina convencional. O próprio Anatoli Dyatlov, ex-engenheiro chefe dos Reatores 3 e 4, somente tinha "alguma experiência com pequenos reatores nucleares".

Se as informações são verídicas ou não, é irrelevante. O importante é que elas podem ser verdadeiras, uma vez que não existem notícias contrárias e o fato aconteceu.

Para concluir, aconselhamos aos interessados e preocupados com o tema, que ecessem o site abaixo. Nele encontrarão a relação de todos os acidentes graves ocorridos em usinas nucleares em 30 anos e as suas causas.

(Disponível em abril de 2011)

Atenção, sergipanos, alagoanos, pernambucanos e, evidentemente, baianos, vamos
ficar atentos. O Velho Chico passa por nossas terras e achamos que vocês, assim como nós, não vão querer uma bomba-relógio no nosso quintal. Nós baianos não precisamos e não queremos usinas nucleares em nosso estado, seja lá onde for. Precisamos nos unir e unir o Brasil contra esta insanidade.

Salvador, 22 de abril de 2011.

Virgilio de Senna
Arquiteto

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